sábado, 29 de novembro de 2014

Exercício Físico e Envelhecimento Saudável

É notório o fenômeno do envelhecimento da população nos países em desenvolvimento, tendência já consolidada nas nações desenvolvidas, devido a uma série de fatores socioeconômicos e tecnológicos, permitindo um aumento da expectativa de vida. No Brasil observa-se essa tendência, inclusive com previsões de aumento substancial de idosos a partir de 2025.
Essa expectativa de crescimento na população idosa implica em maior demanda por serviços de saúde, confrontando-se com um sistema de saúde com déficit orçamentário e com vários problemas que o torna ineficiente. Associado a isso, temos os efeitos do desenvolvimento industrial, que permitiu o surgimento dos grandes centros urbanos, que trouxe como consequência profundas modificações na sociedade. Os indivíduos tornaram-se mais competitivos, ansiosos e preocupados com a sobrevivência. O tempo tornou-se escasso para a prática de atividades físicas associadas a mudanças dos hábitos como alimentação inadequada, obesidade e tabagismo, que são determinantes na deterioração de uma vida ativa e funcional1.
Por outro viés, o envelhecimento da população é o reflexo da melhoria nas condições de vida da nossa população. Entretanto, nos coloca numa situação preocupante, pois esse fenômeno exige respostas mais eficazes para mais ofertas de serviços e produtos de saúde que façam frente às doenças crônicas inerentes ao envelhecimento populacional.
Nesse sentido, os exercícios físicos entram como importante fator prevenção, retardamento ou até mesmo como tratamento de vários agravos crônicos mais comuns em idosos. Doenças crônicas tidas como “do envelhecimento”, a saber, câncer, doenças cerebrovasculares, diabetes, hipertensão, artrite, osteoporose, baixa visão, demência, depressão, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), dentre outras, podem ser prevenidas, e, em algumas situações, retardadas pela prática de exercícios físicos.

Definição e classificação de idosos

São considerados idosos pessoas acima de 65 anos, existindo subclassicações dentro desse grupo, levando em consideração a idade cronológica, a idade fisiológica e presença ou não de patologias.
Com isso, segundo KOPILER (1997), uma maneira simples de classificação é aquela que divide os idosos com base na idade cronológica: “idoso jovem” (65 a 75 anos de idade), “idoso médio” (75 a 85 anos) e “muito velho” (maior que 85 anos). Essa classificação ignora as diferenças potenciais de indivíduos da mesma faixa etária, que apresentem características fisiológicas bem diferentes. Pelo fato de existirem diferenças interindividuais de treinamento físico, saúde e genética, essa análise nos dá muitas vezes uma falsa impressão da verdadeira capacidade funcional do idoso.
A classificação funcional conseguiu reunir os grupos de modo mais uniforme, principalmente quando o objetivo é a prescrição de um programa de treinamento. O “idoso jovem” é considerado o grupo de pessoas que estão livres das responsabilidades com cuidados de filhos, geralmente aposentados e que podem viver de forma independente, com pouca ou nenhuma restrição a atividades físicas. O “idoso médio”, em face do aumento da incapacidade física, como resultado de doença crônica, ou pelos efeitos da idade, ou ambos, necessita de uma maior assistência em suas atividades diárias. Já os “muito velhos” são aqueles totalmente dependentes, necessitando de suporte de familiares devotados, ou enfermagem treinada, ou muitas vezes internados em instituições para maiores cuidados. 1
Por último, é importante a divisão dos idosos em grupos com e sem patologia, como também a identificação desta. A programação de uma atividade física será bem diferente para um idoso saudável, quando comparado com coronariopatas ou indivíduos com restrição de movimentos por problemas articulares. 1

Prescrição de exercícios

A prescrição de exercícios para os idosos não diferem muito dos demais, salvo algumas adequações ou restrições devido as limitações osteoarticulares (em caso de patologias nesse sistema) ou patologias cardiorrespiratórias.
O acompanhamento médico é imprescindível para avaliação clínica, testes e exames que direcionem o profissional na prescrição de exercícios adequados para cada situação específica.
Nesse aspecto, o teste ergométrico é de grande valia, uma vez que permite estratificação de risco para doença coronária; prescrição de exercícios; determinação da capacidade física inicial; comparação com reavaliações após período de atividade física; modificação dessa prescrição no caso de alteração do quadro clínico ou por mudança na medicação que possa interferir de maneira importante na frequência cardíaca ou por parâmetros hemodinâmicos.
Os tipos de exercícios são variados podendo ser caminhadas, natação, ciclismo, hidroginástica, dentro outros. Recomenda-se que a intensidade seja gradativamente aumentada, sempre considerando a avaliação individual para que haja de fato uma melhoria na qualidade de vida, e não o contrário.

Vantagens para o idoso

Sobre os benefícios da atividade física para o idoso, KOPILER (1997) traz dados de outros trabalhos que verificaram melhora significativa na aptidão física, sinalizando alteração positiva no padrão cardiorrespiratório; diminuição dos níveis tensionais em idosos hipertensos; melhora nos reflexos osteomusculares; retardamento da osteoporose, principalmente em mulheres. KOPILER (1997) acrescenta ainda efeitos positivos no âmbito psicológico do idoso, como aumento da autoestima e confiança, permitindo maior interação dos idosos na sociedade.
GUALANO (2011) destaca a eficácia dos exercícios físicos no tratamento de primeira escolha para doenças típicas de idosos, como diabetes, hipertensão, osteoartrite, obesidade, etc. Além disso, o fortalecimento muscular e ósseo tem reflexo na qualidade funcional do idoso, tornando-o independente por mais tempo, evitando quedas e fratura de colo de fêmur, assim associando longevidade com funcionalidade.

Considerações finais

Pelos trabalhos consultados, depreende-se que não restam dúvidas sobre os benefícios da atividade física para o idoso, pairando discussões apenas sobre como implementar tais exercícios nesse grupo. O importante é saber que algo deve ser feito nesse rumo, compreender que os exercícios serão um ingrediente fundamental nessa massa de idosos que já existe e que está por vir. Os exercícios vão permitir longevidade com qualidade de vida, diminuindo a sobrecarga nos serviços de saúde.

        Referências

KOPILER, Daniel Arkader. Atividade física na terceira idade.  Rev Bras. Med. Esporte.  Vol. 3, Nº 4, 1997.

GUALANO B, TINUCC T. Sedentarismo, exercício físico e doenças crônicas. Rev. bras. Educ. Fís. Esporte, São Paulo, v.25, p.37-43, dez. 2011 N. esp. 39.

http://www.abcdasaude.com.br/medicina-esportiva/exercicios-na-terceira-idade

http://oglobo.globo.com/sociedade/saude/encontros-o-globo-saude-e-bem- estar/exercicios-sao-os-maiores-aliados-na-terceira-idade-13995446

ARGENTO, Rene de Souza Vianello. Benefícios Da Atividade Física Na Saúde E Qualidade De Vida Do Idoso. Acessado em file:///C:/Users/cleiso/Downloads/ArgentoRenedeSouzaVianello_TCC%20(1).pdf

sábado, 22 de novembro de 2014

Exercícios e Doenças Crônicas



Algumas doenças crônicas não transmissíveis, como as cardiovasculares, seus fatores de risco metabólicos (diabetes mellitus, hipertensão arterial sistêmica e dislipidemias) e a incapacidade funcional são importantes causas de morbidade e mortalidade entre adultos. Em geral, essas doenças são de longa duração, múltiplas, exigem acompanhamento multidisciplinar permanente, intervenções contínuas e requerem que grandes recursos materiais e humanos sejam despendidos, gerando encargos ao sistema público e social. No Brasil, por exemplo, elas respondem por, aproximadamente, 70% dos gastos assistenciais com a saúde1.
Apesar de a herança genética ser fator de grande relevância na determinação da suscetibilidade à doença, o desenvolvimento dessas morbidades se dá, primordialmente, por fatores ambientais e do estilo de vida. Estima-se que 75% dos casos novos de doenças não transmissíveis poderiam ser explicados por dieta e inatividade física1.
 O baixo condicionamento cardiorrespiratório, a pouca força muscular e o sedentarismo, por exemplo, aumentam em três a quatro vezes a prevalência da Síndrome Metabólica (SM).
Estudos epidemiológicos demonstram que a inatividade física aumenta substancialmente a incidência relativa de doença arterial coronariana (45%), infarto agudo do miocárdio (60%), hipertensão arterial (30%), câncer de cólon (41%), câncer de mama (31%), diabetes do tipo II (50%) e osteoporose (59%). As evidências também indicam que a inatividade física é independentemente associada à mortalidade, obesidade, maior incidência de queda e debilidade física em idosos, dislipidemia, depressão, demência, ansiedade e alterações do humor2.
Dessa forma, percebe-se que a inatividade física é um dos grandes problemas de saúde pública na sociedade moderna, sobretudo quando considerado que cerca de 70% da população adulta não atinge os níveis mínimos recomendados de atividade física. O ônus socioeconômico da inatividade física é alarmante: estimativas sugerem que os custos relacionados ao tratamento de doenças e condições possivelmente evitadas pela prática regular de atividade física são da ordem de um trilhão de dólares por ano, apenas nos Estados Unidos2.
Com algumas adequações, o exercício é um importante fator capaz de mudar esse quadro evidenciado, tendo em vista o vasto espectro de ação do exercício físico sobre o organismo, as baixíssimas taxas de prevalência e gravidade de efeitos adversos, e o baixo custo de seu emprego. Acredita-se que jamais surgirá uma droga que mereça a alcunha de “mimetizador” de exercício, sendo o próprio absolutamente ímpar como agente terapêutico. 2

Recomendação de atividade física

Em 1995, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) e o Colégio Americano de Medicina Esportiva (ACSM) criaram uma recomendação populacional que preconizava que
“todos os indivíduos deveriam realizar atividades físicas de moderada intensidade, contínuas ou acumuladas, em todos ou na maioria dos dias da semana, totalizando, aproximadamente, 150 minutos/ semana ou 200kcal por sessão” 1.
Essa recomendação foi apoiada pela OMS e aceita pelo Ministério da Saúde do Brasil, preconizando frequência mínima de 5 vezes por semana e 30 minutos de duração para intensidades moderadas, 3 vezes por semana e 20 minutos para as vigorosas, podendo estas ser complementares. O programa moderado pode ser acumulado em sessões de 10 minutos, no mínimo. Foram incorporados os exercícios de força muscular por, pelo menos, duas vezes por semana1.
É importante ressaltar, que para o início de uma atividade física é necessário orientação profissional, assegurando uma prescrição adequada para cada indivíduo, levando em consideração a avaliação do estado de saúde do mesmo.
Dessa forma, conclui-se que a atividade física é imprescindível para a prevenção e tratamento de doenças crônicas, devendo ser orientado e acompanhado por profissionais habilitados. Diante da tenebrosa expectativa para o aumento desses agravos na sociedade brasileira, devemos incorporar essa via terapêutica como fator de promoção e tratamento em nosso cotidiano profissional futuramente.


Referências


  1. COELHO CF, BURINI. RC. Atividade física para prevenção e tratamento das doenças crônicas não transmissíveis e da incapacidade funcional. Rev. Nutr. Campinas, 2009.
  2.  GUALANO B, TINUCC T. Sedentarismo, exercício físico e doenças crônicas. Rev. bras. Educ. Fís. Esporte, São Paulo, v.25, p.37-43, dez. 2011 N. esp. 39.
  3. http://www.educadores.diaadia.pr.gov.br/arquivos/File/2010/artigos_teses/EDUCACAO_FISICA/artigos/AtF_e_Doencas_degenerativas.pdf

sábado, 15 de novembro de 2014

EFEITOS DOS EXERCÍCIOS FÍSICOS NA DISLIPIDEMIA



A partir dessa postagem, vou iniciar outra linha de abordagem de alterações bioquímicas adaptativas resultantes de exercícios físicos. Será iniciado um passeio pelas principais doenças crônicas que são afetadas por essas respostas bioquímicas.


Aterosclerose. Fonte: http://vascular.pro/content/
como-prevenir-aterosclerose
A dislipidemia é uma condição clínica cada vez mais comum entre os brasileiros, sendo um dos fatores de risco para o desenvolvimento da doença arterial coronariana(DAC). A DAC se processa pela formação da placa aterosclerótica que inicia-se com a agressão ao endotélio vascular devido a diversos fatores de risco, como elevação de lipoproteínas aterogênicas, cujos depósitos na parede arterial, responsável no início da aterogênese, ocorrem de maneira proporcional à concentração dessas lipoproteínas no plasma.







Fonte: http://sfnoticias.com.br/dislipidemia-x
-alimentacao
As dislipidemias são distúrbios do metabolismo lipídico, com repercussões sobre os níveis das lipoproteínas na circulação sanguínea, bem como sobre as concentrações dos seus diferentes componentes. Mais especificamente, as dislipidemias com níveis anormais de colesterol total, triglicerídeos, lipoproteínas de alta densidade ligada ao colesterol (HDL-colesterol), lipoproteínas de baixa densidade ligada ao colesterol (LDL-colesterol) e lipoproteína plasmática, estão diretamente associadas à gênese e evolução da aterosclerose. A elevada concentração de LDL-colesterol e lipoproteína(a), assim como a baixa concentração de HDLcolesterol plasmáticas, têm sido consideradas como fatores de risco independentes para o desenvolvimento da aterosclerose. Além dessas alterações lipídicas, o estilo de vida sedentário é outro fator de risco que concorre para o desenvolvimento da placa aterosclerótica.


A prática de exercícios físicos é estimulada atualmente como parte profilática e terapêutica de todos os fatores de risco da doença arterial coronariana. O combate à dislipidemia através de exercícios físicos tem sido alvo de inúmeros estudos e debates científicos em todo o mundo e, atualmente, está sendo recomendado como parte integrante de seu tratamento. Sabe-se que esta discussão surgiu devido à existência de um grande número de pessoas com alterações lipídicas/lipoproteicas sujeitas à doença arterial coronariana e às consequências socioeconômicas causadas pelas milhares de internações por doenças cardiocirculatórias existentes em todo o mundo, com grandes repercussões financeiras.
Os exercícios físicos aeróbicos, de forma moderada e frequente, têm demonstrado efeitos positivos na redução de LDL e aumento de HDL, entretanto existem outros condicionantes que devem estar em concomitância com os exercícios. Pesquisas têm demonstrado que o exercício, associado à perda de peso, têm possibilitado maior eficácia no controle lipídico sérico. Por exemplo, em um estudo dividiu-se as pessoas pesquisadas em quatro grupos que realizaram: apenas exercício aeróbio, somente dieta, exercício aeróbio mais dieta, e um grupo controle que não recebeu nenhum tratamento, verificou-se que os níveis de LDL-colesterol foram significativamente reduzidos entre homens e mulheres do grupo de exercício físico mais dieta, quando comparados com o grupo controle e entre homens desse mesmo grupo (dieta mais exercício), quando comparados com homens do grupo que realizou apenas exercício físico. O grupo com apenas dieta não reduziu significativamente o LDL-colesterol em ambos os sexos, embora somente este grupo e o de exercício mais dieta tenham reduzido o peso corporal. Nenhuma mudança significativa dos níveis da HDL-colesterol foi encontrada entre os grupos que receberam tratamento para ambos os sexos. Assim, esse estudo demonstrou a importância do tratamento aos níveis elevados da LDL-colesterol, não somente com a dieta, mas com o exercício físico aeróbio associado, onde também ocorreu perda de peso corporal1.


MECANISMO BIOQUÍMICO

A explicação para essas alterações lipoprotéicas benéficas nos níveis plasmáticos da HDL-colesterol, LDL-colesterol e suas subfrações, a partir de exercício aeróbio, em suas diferentes intensidades, durações e frequências, reside no melhor funcionamento dos processos enzimáticos envolvidos no metabolismo lipídico, mais especificamente, no aumento da atividade enzimática da lipase lipoprotéica, que favorece um maior catabolismo das lipoproteínas ricas em triglicerídeos, formando menos partículas LDL aterogênicas e elevando a produção de HDL nascente, além do aumento da lecitina-colesterol-acil-transferase e diminuição da atividade da lipase hepática, ambas favorecendo a formação de subfrações HDL2-colesterol. A redução de atividade da proteína de transferência de colesterol esterificado com o exercício aeróbio, também parece ocorrer, permitindo uma prevenção na formação de partículas LDL pequenas e ricas em colesterol.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pode-se depreender que os exercícios físicos aeróbicos e moderados são importantes para o controle da dislipidemia, devendo ser coadjuvante em tratamento medicamentoso, ou mesmo ser de primeira escolha para pessoas em geral, devendo ser observada a necessidade de associação com uma dieta que ajude na perda de peso. A redução de LDL e aumento de HDL, alcançados com práticas de exercícios, são cruciais para a prevenção da doença coronariana.


REFERÊNCIAs


1. Stefanick ML, Mackey S, Sheehan M, Ellsworth N, Haskell WL, Wood PD. Effects of diet and exercise in men and postmenopausal women with low levels of HDL cholesterol and high levels of LDL cholesterol. N Engl J Med 1998; 339: 12-20.

2. Prado ES, Dantas EHM. Efeitos dos exercícios físicos aeróbio e de força nas lipoproteínas HDL, LDL e lipoproteína. Arq Bras Cardiol, volume 79 (nº 4), 429-33, 2002.

3. http://socerj.org.br/doenca-coronariana/

4.http://portaldocoracao.uol.com.br/anormalidades-do-colesterol/exercicios-fisicos-e-as-dislipidemias-anormalidades-do-colesterol-total-e-fraces


sábado, 8 de novembro de 2014

ADAPTAÇÕES BIOQUÍMICAS E FUNÇÕES COGNITIVAS



Nessa postagem vou associar as alterações bioquímicas decorrentes da prática de exercícios físicos com a cognição do indivíduo. As últimas postagens vêm tomando esse corpo, uma abordagem bioquímica que busca compreender os efeitos biomoleculares sobre o organismo humano no âmbito psicológico decorrentes das práticas de exercícios físicos. As vantagens são muitas, quase todas positivas e protetivas.
Recentemente, a melhoria da função cognitiva associada a exercícios físicos tem ganhado notoriedade. Embora haja grande controvérsia, diversos estudos têm demonstrado que o exercício físico melhora e protege a função cerebral, sugerindo que pessoas fisicamente ativas apresentam menor risco de serem acometidas por desordens mentais em relação às sedentárias. Isso mostra que a participação em programas de exercícios físicos exercem benefícios nas esferas física e psicológica e que, provavelmente, indivíduos fisicamente ativos possuem um processamento cognitivo mais rápido.


O QUE É COGNIÇÃO?

Entende-se por função cognitiva ou sistema funcional cognitivo as fases do processo de informação, como percepção, aprendizagem, memória, atenção, vigilância, raciocínio e solução de problemas. Além disso, o funcionamento psicomotor (tempo de reação, tempo de movimento, velocidade de desempenho) tem sido frequentemente incluído neste conceito1, 2.
Diversos fatores concorrem para os déficits cognitivos. Colcombe et al. 3 encontraram declínios importantes na densidade de tecidos neurais em função do envelhecimento no córtex frontal, parietal e temporal. Isso pode ser justificado em razão de uma quebra do equilíbrio entre a lesão e o reparo neuronal. O cérebro é sensível a inúmeros fatores que resultam em danos às redes neurais. De forma similar aos outros tecidos, ele possui a capacidade de auto-reparação/auto-adaptação, ou mesmo uma compensação pela perda de neurônios e interrupções na arquitetura neural. Quando ocorre um desequilíbrio entre lesão neuronal e reparação, essa capacidade de plasticidade neuronal é prejudicada, estabelecendo-se então o envelhecimento cerebral e a demência.
 Ao longo da última década foram identificados alguns fatores de risco que podem aumentar a predisposição de um indivíduo ao prejuízo cognitivo. Dentre esses fatores destacam-se idade, gênero, histórico familiar, trauma craniano, nível educacional, tabagismo, etilismo, estresse mental, aspectos nutricionais e socialização. Mais recentemente, fatores que podem ser revertidos ou atenuados pelo exercício físico, tais como as doenças crônico-degenerativas, hipercolesterolemia e aumento na concentração plasmática de fibrinogênio e o sedentarismo, estão sendo associados ao maior risco de declínio cognitivo.


ADAPTAÇÕES BIOQUÍMICAS E FUNÇÕES
COGNITIVAS

A ação do exercício físico sobre a função cognitiva pode ser direta ou indireta. Os mecanismos que agem diretamente aumentando a velocidade do processamento cognitivo seriam uma melhora na circulação cerebral e alteração na síntese e degradação de neurotransmissores. Além dos mecanismos diretos, outros, tais como diminuição da pressão arterial, decréscimo dos níveis de LDL e triglicérides no plasma sanguíneo e inibição da agregação plaquetária parecem agir indiretamente, melhorando essas funções e também a capacidade funcional geral, refletindo-se desta maneira no aumento da qualidade de vida.4
Além disso, estudiosos têm sugerido alguns mecanismos que seriam responsáveis por mediar os efeitos do exercício sobre as funções cognitivas. Para a síntese, ação e metabolismo de neurotransmissores, é indispensável o aporte de quantidades adequadas de substratos para essas reações. Dessa forma acredita-se que o exercício físico poderia aumentar o fluxo sanguíneo cerebral e, conseqüentemente, de oxigênio e outros substratos energéticos, proporcionando assim a melhora da função cognitiva. Outra hipótese que tem sido formulada diz respeito aos efeitos do estresse oxidativo sobre o SNC, de modo que a prática de exercício físico aeróbio poderia aumentar a atividade de enzimas antioxidantes de forma semelhante ao que acontece em outros tecidos, como no músculo esquelético, aumentando a capacidade de defesa contra os danos provocados por espécies reativas de oxigênio 5.
Também não pode ser descartada a hipótese de que o exercício físico, por si só, aumenta a liberação de diversos neurotransmissores, tais como aumento nas concentrações de norepinefrina e seus precursores, aumento nas concentração de serotonina e β-endorfinas após uma sessão aguda de exercício.
Alguns estudiosos defendem que durante o exercício físico a barreira hematoencefálica torna-se mais permeável a esses neurotransmissores séricos circulantes e a outros hormônios. Há ainda os que asseguram que a atividade física aumenta a produção de fatores neurotróficos no SNC que promovem a manutenção cerebral e a plasticidade neuronal, tornando a função cognitiva mais efetiva.
Como se ver, há variadas ideias sobre os processos bioquímicos adaptativos que colaboram para a cognição, entretanto os estudos ainda são inconclusivos, e muitos deles até conflitantes. Apesar disso, não há dúvida sobre os efeitos benéficos dos exercícios físicos para a cognição. Isso é o que se observa em estudos epidemiológicos que associam maior prevalência de doenças mentais, por exemplo, em pessoas sedentárias do que em pessoas moderadamente ativas7.

  
Referências


1. Chodzko-Zajko WJ, Moore KA. Physical fitness and cognitive functioning in ging. Exerc Sport Sci Rev 1994;22:195-220.

2. Suutuama T, Ruoppila I. Associations between cognitive functioning and physical activity in two 5-year follow-up studies of older finish persons. J Aging Phys Act 1998;6:169-83.

3. Colcombe SJ, Erickson KI, Raz N, Webb AG, Cohen NJ, McAuley E, et al. Aerobic fitness reduces brain tissue loss in aging humans. J Gerontol A Biol Sci Med Sci 2003;58:176-80.

4. McAuley E, Rudolph D. Physical activity, aging, and psychological well-being. J
Aging Phys Act 1995;3:67-96.                                                    

5. 12. Chodzko-Zajko WJ, Moore KA. Physical fitness and cognitive functioning in aging. Exerc Sport Sci Rev 1994;22:195-220.

6. Hanna KM,  Antunes, Ruth FS, Ricardo C,  Ronaldo VTS, Orlando FAB, Marco TM . Exercício físico e função cognitiva: uma revisão. Rev Bras Med Esporte Vol. 12, Nº 2 , 2006; 2: 108-114


7. Mello MT, Fernandez AC, Tufik S. Levantamento epidemiológico da prática de atividade física na cidade de São Paulo. Rev Bras Med Esporte 2000;6:119-24.

sábado, 1 de novembro de 2014

b-Endorfina e Exercícios Físicos




Na postagem anterior tratou-se da relação exercício físico e ansiedade, enfatizando o efeito da resposta adaptativa mediante a produção de lactato. Hoje, retorno o tema dos efeitos benéficos dos exercícios físicos no aspecto psicológico, considerando as alterações bioquímicas do organismo a partir do incremento de b-endorfinas. Vale ressaltar que a maioria dos trabalhos que aborda esses aspectos é controversa, inconclusiva, e, portanto, carecendo de mais estudos.

Conceituando

A b-endorfina é um peptídeo de 31 aminoácidos, tem uma intensa atividade opióide e, em comparação com as encefalinas, apresenta maior resistência à degradação enzimática. As endorfinas possuem efeitos analgésicos e eufóricos, tendo implicações em diferentes sistemas e fenômenos do organismo.
A b-endorfina pode ser liberada na circulação pela hipófise anterior ou projetada para áreas do cérebro por meio das fibras nervosas, tendo meia-vida plasmática de aproximadamente 20 minutos. Em condições normais, apresenta concentrações muito baixas, embora, sob condições de estresse, como no exercício físico, aumente 3 a 10 vezes.

Respostas de b-endorfina aos exercícios

A pesar das controvérsias, a maioria dos estudos indica que há aumento de b-endorfina durante e após o estresse físico. Os fatores que colaborariam para o incremento desse neurotransmissor têm sido demonstrados, porém com resultados inconclusivos.
Os trabalhos consultados indicam que no exercício máximo e anaeróbico tem sido verificado importante correlação de b-endorfina com o lactato, evidenciando o aumento da concentração de b-endorfina após o limiar anaeróbico ser excedido. No exercício aeróbico realizado em equilíbrio entre a produção e eliminação de lactato, os níveis de b-endorfina não aumentam até que a duração do exercício exceda aproximadamente uma hora, quando se estabelece um desequilíbrio da produção e eliminação do lactato. Outras observações indicam que a acidose e a glicorregulação decorrentes do estresse físico também são responsáveis pelo incremento de b-endorfinas.

Ação da b-endorfina

Muitos são os efeitos atribuídos à b-endorfina, entre eles, a influência nos sistemas metabólico, imune, cardiovascular e respiratório; na regulação da temperatura, na função gastrintestinal, no apetite, no sono, na função do aprendizado e da memória, na analgesia, na diminuição do desconforto respiratório e muscular, nas alterações do humor , na depressão,  na esquizofrenia, dentre outros.
Os praticantes de atividade física regular são beneficiários desses efeitos, apresentando melhora no humor e diminuição da percepção da dor, redução do estresse e ansiedade, aumento de concentração e aprendizagem.

Considerações

Portanto, os mecanismos que levam ao incremento de b-endorfina, e o efeito desse neurotransmissor nas melhorias fisiológicas e psicológicas ainda são matérias para mais esclarecimentos científicos. Apesar disso, a atividade física tem proporcionado melhores de condições de saúde e qualidade de vida de seus adeptos, devendo ser incentivada para que mais pessoas possam usufruir desse benefício.

Referências

Werneck FZ, Barra Filho MG, Ribeiro LCS. Mecanismo de melhora do humor após exercício             físico: Revisitando a hipótese das endorfinas. Rev. Bras. Ci. Mov. 2005.

Cunha GS, Ribeiro JL, Oliveira AR. Níveis de beta-endorfinas em resposta ao exercício e no               sobretreinamento. Arq. Bras. Endocrinol Metab. 2008.

http://www2.uol.com.br/vyaestelar/cerebroecorpo_endorfinas.htm